3.4.11

Universo Paralelo

Você já deve ter imaginado um espectro. Imaginado, apenas.
Então imagine agora que este espectro esteja na sua frente, caminhando sobre a mesma terra que os seus pés tocam, sem sandálias, sem coberturas. E ele joga-se nos ventos do seu mundo, ele caminha, ele sorrir, ele te olha. Mas você não consegue tocá-lo, você não consegue senti-lo. Você sequer consegue escutar o som da sua voz. Seu sonho parece estar em stop motion, várias fotografias sendo descarregadas num mundo que não te pertence, e que ele não pertence mais ao seu.
É como se na arte de Michelangelo em A criação de Adão, no momento em que o Homem, pacientemente, inconsciente, tocará os dedos do seu Deus para tornar-se vivo, naquele momento em que tudo parece parar e focam-se os dedos, e focam-se na bolha que os cobrem, na energia que emite e, de repente. Some. Tudo desaparece por completo. Tudo morre.
E mesmo que você caminhe pelos sete mares, você não encontrará mais vestígios, não encontrará mais abraços.
Tudo desaparece, e sempre há alguém que fica. Para contar a história de um herói, de um romance, de uma novela. De uma saudade. Inatingível.
Para viver.


"O prisioneiro desfaz-se gradualmente da posição fetal, e espreme-se, como se saísse do útero. Ofusca-se. Ao ouvir “Vive!”, respira forte com asfixia. Grita e chora. Ri e morre."

31.3.11

Desarme

Você já imaginou se a cada sorriso verdadeiro que você recebesse, fosse como ganhar um cristal? E a cada sorriso que você desse, fosse como assoprar um cristal? Quantas e quais pessoas seriam ricas no mundo?
Se sua renda familiar fosse avaliada em quanto amor você recebe e quanto amor você dá. Se seu relacionamento amoroso fosse classificado como bom ou ruim pela quantidade de compreensão, de admiração, de carinho; e não por quantas vezes você faz sexo por semana.
Se sua melhor amiga fosse fiel pela ausência de ausências e não por ter tornado-se a nova DJ do momento e te dar senhas para a entrada do show;
Se as coisas valiosas, interessantes, incessantes fossem aquelas que estão adormecidas ou bem acordadas dentro de você, e não na etiqueta do seu bikine de marca brasileira ou na quantidade de colegas impotentes que você possui no orkut?

 Ultimamente, na faculdade, nos amigos dos amigos, nos familiares distantes, nos corações em chamas pelas frustrações da vida, eu finalmente ando percebendo o quanto há pobreza, miséria e ilusão.
O quanto as pessoas esquecem que, quando a moradia do seu corpo for cerca de 2m² inundado de seres irracionais tentando comer cada centrímetro do seu corpo avaliado numa fortuna de esteriótipos terrestres nada mais vale a pena a não ser aquelas lágrimas que caem sobre o teu rosto frio e branco, cobertas de amor.
Então, preserve amor, lave bem seu jeans da paciência e carinho.
As pessoas estão famintas, mas não sabem o que é comida. Estão com sede, mas esqueceram o que é água. E generalizo. Generalizo bastante. Falo também de mim,
Que ando perdida, fascinada por uma solução simples aparentemente inalcansável, tomando sorvete pra passar a sede, comendo algodão doce para passar fome.
Mas ainda há solução. 
Porque como diz minha amiga FeAraze, Tudo Flui..


Pobre de fotos, eu sei. Um dia, quem sabe...

12.2.11

B.

 Usar pra mostrar o que se tem para gritar
 Usar pra morder o que se tem para falar
 Usar pra se dar o que se tem para receber
Usar pra comer o que se tem para vomitar


Eu gostaria de, além de ter uma boca para falar menos e dois ouvidos pra escutar mais, uma vontade para se guardar e um desejo pra se esquecer.

1.2.11

Às dez


Meus dias se resumiram aos que eu acordava cedo, bebia um café quente e saboroso, deitava-se na cama enquanto lia Liz em Bali, escutava do quarto o barulho do arroz sendo despejado na panela e o cheiro das roupas que estavam sendo limpas na máquina de lavar; e aqueles em que acordava com o barulho da vassoura sendo batida em todos os cantos da parede da minha casa pela minha mãe. Na maioria deles, houve também madrugadas em que eu acordava com um sonho ruim, que me fazia adormecer novamente com preces à Deus
“Livrai-me de todo o mal, Amém!”
Esta madrugada acordei à uma hora por causa do calor insuportável que fazia no quarto, e deitei-me na rede para ver o céu azul marinho e frio. Às dez já estava de pé. Ainda tinha três horas para ir ao trabalho, o que me dava tempo de escutar todo o barulho e sentir todo o silêncio que amanhã, quem sabe, eu não possa escutar nem sentir mais.
As últimas folgas do trabalho foram regadas de uma preguiça sem pecado, onde eu me dividia entre comer pão e biscoitos ou deitar-se na cama para rir com minha mãe, mas isso é outra página de metáforas Kafkianas.
Quando eu olhava para os fogos com uma taça de champagne na praia da Pipa, na virada do ano e pedia por paz, por uma serenidade ímpar, não imaginava que o meu signo pudesse acalmar-se a tanto.
Às vezes, eu fico meio perdida ainda, mas há dias que eu só consigo ver um novo propósito em tudo.
Bom fevereiro pra mim e pra você!

29.1.11

Telephone sem fio

Passei a tarde olhando o meu corpo no espelho e sentia que aquilo tudo era real. O meu rosto envelhecendo, meus cabelos bagunçados, alguns quilos a mais. Pela primeira vez, olhando fixamente para os meus olhos, eu senti prazer por mim mesma.

Refiz o blog.

Não tinha nada a escrever, tão pouco vontade de colocar todos os layouts que ele merecia, apenas criei, lembrando que do que era ou estava sendo, essa era uma das poucas coisas que desejava preservar.
Olhava para a foto do painel vermelho preso no quarto da minha mãe; lembrava daquele dia, de como, além de cansada de fotos, revelava um sorriso sincero, verdadeiro. Comparei com o de agora. Não me reconheço mais.


Então, decidi refazer uma ligação. Sem fio. por Telephone.


          Quando recriei o blog
(2010). 


10.1.11

Novo Ano

Debaixo da terra há um ninho de pássaros, duas sementes vermelhas e um punhado de galhos. Abaixo de mim há uma terra úmida, molhada pelo orvalho daquelas manhãs de verão, alguns anelídeos fazendo cócegas nos meus pés. Eu os posso sentir com tanta precisão.

Dentro de mim há um vazio imenso, que se preenche de mim mesma todas as vezes que eu inspiro o oxigênio do mundo, daquelas árvores, daquelas águas, daquele Planeta. Azul. Verde. De mim. Branco.

Você pode sentir? O sangue correndo apressadamente dentro de suas veias e artérias, o seu coração pulsando 150 batimentos por minuto, a sua alma em curto circuito com o seu corpo, a vibração, a energia, o êxtase. E você consegue finalmente sentir-se parte do mundo, como uma folha é essencial a uma árvore, como uma gota é essencial a uma folha, como você é essencial, como você pertence ao mundo e ele a você.

E fielmente ver a precisão da paz.



“o corpo não é senão aquilo que sobra da vida de uma alma”





29.9.10

Para pra ver...


Hoje pela manhã acordei mais cedo que de costume. Segundo o meu relatório semanal, era dia de prova de Psicologia do Ambiente para Arquitetura e Urbanismo. Quando cheguei na faculdade todos os alunos estavam brincando de deficientes físicos e visuais. Tinha algumas cadeiras de rodas, vendas, e outros aparelhos parecidos. Fiquei por mais de meia hora observando aquela cena ilustre – entre conversas bobas – pessoas fisicamente saudáveis brincando de deficientes, algumas pessoas deficientes mentais brincando de saudáveis.
Perguntei a Simara, uma das poucas pessoas sãs que parece ser anormal:
- Por que as pessoas são assim, tão chatas?
- Eu também me pergunto isso.
- Será que deveríamos ser assim também?
 Se continuarmos sendo como somos,
 eles vão acabar ‘massacrando’ a gente;
eu nem sei mais respondê-los.
- É melhor sermos assim como somos.
Se quisermos responder como eles,
podemos acabar sendo influenciadas e tornar-nos iguais.
 Melhor sermos assim,
não corremos o risco de magoar pessoas como a gente.
- É, deve ser!

Passei mais alguns segundos tentando responder a minha pergunta. Por que eles não tentam conversar e serem amigos, por que eles não riem de brincadeiras bobas, por que eles são tão insensíveis e competitivos? Por que os seres humanos, em maioria, são tão sérios?

Daí veio um pensamento em outra dimensão. Por que eu preciso saber disso? Por que eu simplesmente não continuo vivendo e trazendo para perto de mim apenas pessoas sãs – no que significa estar em si pra mim – de fato?
A aula acabou, roubei um café na sala onde se paga caro para estudar ali e peguei minha carona para casa.


Tive um bom dia hoje!